Leitura de Verão

É precisamente no Verão, a altura do ano, em que leio menos.
Na primeira semana em Portugal li, na praia, "Travessia de Verão" de Truman Capote.
Li, também, um livro de poemas "Gaveta de Papéis" de José Luís Peixoto, que ganhou o Prémio Daniel Faria 2008.
José Luís Peixoto nasceu a 4 de Setembro de 1974 em Galveias, Ponte de Sor. Em 2001 recebeu o Prémio José Saramago com o romance "Nenhum Olhar". Além dos romances "Uma Casa na Escuridão" e "Cemitério de Pianos" publicou as narrativas "Morreste-me" e "Antidoto", assim como os volumes de poemas "A Criança em Ruínas" e "A Casa, a Escuridão". Também tem escrito para teatro.
Não conhecia este autor, apesar dos seus romances se encontrarem traduzidos em 12 idiomas.

Quando me cansei de mentir a mim próprio,
comecei a escrever um livro de poesia.

Foi há duas horas que decidi, mas foi há muito
mais tempo que comecei a cansar-me. O cansaço
é uma pele gradual como o outono. Pausa.

Pousa devagar sobre a carne, como as folhas
sobre a terra, e atravessa-a até aos ossos,
como as folhas atravessam a terra e tocam
os mortos e tornam-se férteis a seu lado.

A cidade continua nas ruas, as raparigas riem,
mas há um segredo que fermenta no silêncio.
São as palavras, livres, os livros por escrever,
aquilo que virá com as estações futuras.

Há sempre esperança no fundo das avenidas.
Mas há poças de água nos passeios. Há frio,
há cansaço, há duas horas que decidi, outono.

E o meu corpo nao quer mentir, e aquilo que
não é o meu corpo, o tempo, sabe que
tenho muitos poemas para escrever.

Gaveta de Papéis, pág. 45

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